As crianças ainda sabem brincar de “pega-pega”?

Vou levantar uma polêmica aqui, que talvez não seja polêmica, mas sim uma reflexão sobre… As crianças ainda sabem (ou já sabem) brincar de “pega-pega”?

Tenho certeza que mães/pais/responsáveis/professores dirão “lógico!”, mas quero também ressaltar para estas mesmas pessoas que responderam “lógico!” que tem uma outra grande porcentagem de pessoas que constataram que centenas de milhares de crianças não sabem brincar, e há diversos motivos para que não saibam.

Não é um estudo científico meu, e nem vou citar fontes, é apenas um pensamento meu decorrente das minhas vivências como professor de ensino fundamental 1 e do público que trabalho (alta renda).

Preciso ressaltar que isso é apenas um recorte da comunidade em que estou trabalhando, em uma região financeiramente privilegiada da cidade de São Paulo, no caso Alphaville, Barueri. A faixa etária é entre 7 e 8 anos, e não são cem por cento das crianças que não sabem brincar, mas há grupos específicos de crianças dentro de cada turma. Veja abaixo a minha classificação para o grupo com cerca de 20 crianças (1º ano):

Gráfico não-científico.

Relembrando que esta é uma constatação amadora, sem pesquisa, sem abordagens profundas com questionários, apenas observação rudimentar das aulas em um período de uma semana apenas, com base nas duas aulas que os quatro grupos de 1º ano tiveram com as duas aulas da semana para cada grupo.

Mas mesmo não tendo sido científico, apenas observação geral, me levantou a hipótese de não saberem brincar por alguns motivos óbvios, que são eles:

  • A ascensão da tecnologia;
  • A falta de estímulos dentro de casa;
  • A não realização de aulas de Educação Física no ensino infantil na escola em que as crianças foram observadas.

E ainda poderia abordar que as crianças não sabem lidar com frustrações, que não sabem lidar com o “perder”, porque é sempre “ganhar”, nunca “perder”. É recorrente escutar dois tipos de histórias vindas das crianças: “eu sou o melhor de todos” ou “eu não sei fazer isso… eu não sou bom nisso”. Quem está no meio termo são as crianças que acham o equilíbrio entre se empenhar e não se “acharem” os melhores, ou de se empenharem e não se frustrarem quando perdem, o que é inevitável perder.

Perder faz parte da brincadeira, então as crianças em casa não brincam porque não querem perder, consequentemente não saberão o que é lidar com a frustração da perda e persistir na brincadeira para melhorar e encontrar a satisfação de brincar por si só. É sempre competição, ou nenhuma competição. Oito ou oitenta. Quem está na pequena porcentagem de crianças que brincam e se divertem não são os mais habilidosos em desviar, ou os mais rápidos, mas sim aqueles que vivenciam a brincadeira e criam estratégias novas, e mesmo com a inevitável perda, não deixam de brincar na próxima rodada para continuar se divertindo na aula.

O que significa que os “melhores” alunos nas aulas de Educação Física não são aqueles alunos “diferenciados”, mas são aqueles alunos que simplesmente seguem as regras e persistem na brincadeira, tentando assim melhorar seu desempenho e consequentemente se divertir mais. O caminho de desistir é fácil, porque a criança que desiste tem uma recompensa desproporcional vinda dos adultos, como aquisição de novos brinquedos, uma compensação através de promessas que os fazem parar de fazer “birra” porque não sabem perder. Não há conflito entre quem está educando e quem está sendo educado, portanto, não há educação vinda de casa.

O professor se depara com a situação de tirar a criança da zona de conforto, mas a criança não quer sair e não vai sair, porque perder no celular é apenas apertar o botão de desligar o jogo, e ainda não tem que lidar com outras pessoas ao redor tentando fazê-las superar os desafios. Há muitas questões envolvidas, e não cabe a mim escrever em textos não pautados em referências bibliográficas para dizer o que realmente é, porém, esta experiência me faz sim querer me aprofundar e estudar sobre o que as crianças sabem brincar e quais os impactos da tecnologia nas aulas de Educação Física no ensino infantil.

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