Na dança silenciosa entre o corpo e o mundo, há um elemento que, mesmo invisível, sustenta cada gesto, cada passo, cada salto: a equilibração. Esse fator psicomotor é a âncora que permite ao corpo explorar o espaço sem perder-se em desequilíbrios, tropeços ou quedas. É o fio que costura a confiança motora na primeira infância, sustentando o desenvolvimento integral da criança.
O que é Equilibração na Psicomotricidade?
Segundo Vítor da Fonseca, grande referência na psicomotricidade europeia, a equilibração é um dos sete fatores psicomotores essenciais ao desenvolvimento humano. Ela se refere à capacidade do indivíduo de manter ou recuperar o controle postural em situações estáticas ou dinâmicas, garantindo uma base segura para o movimento (Fonseca, 1995).
A equilibração atua como ponte entre a tonicidade (estado de prontidão muscular) e a lateralidade (organização do corpo no espaço), formando o alicerce para a coordenação motora ampla e fina. Nas palavras de Fonseca, ela é “um eixo organizador do corpo em função da gravidade”, exigindo constante ajuste tônico e sensorial para manter o corpo estável e funcional.
Características da Equilibração:
- Equilíbrio Estático: Manutenção da postura sem deslocamento, como ficar em pé sobre um pé só.
- Equilíbrio Dinâmico: Estabilidade durante o movimento, como correr, saltar ou caminhar sobre uma linha.
- Ajustes Posturais: Pequenos ajustes automáticos e inconscientes que mantêm o corpo em alinhamento.
- Integração Sensorial: Uso da visão, do tato e do sistema vestibular (relacionado ao ouvido interno) para localizar o corpo no espaço.
Equilibração na primeira infância: um teatro de descobertas.
Durante os anos iniciais de vida, a criança vive uma fase de experimentação corporal intensa. Ela sobe, desce, gira, cai e se levanta como se o chão fosse seu principal mestre. É nesse cenário lúdico que a equilibração se desenvolve: na tentativa e no erro, no desequilíbrio seguido de autocorreção.
Nas aulas de Educação Física para a primeira infância, a equilibração se apresenta como protagonista em brincadeiras que parecem simples, mas têm profundidade pedagógica. Quando uma criança caminha sobre uma linha no chão, salta de um obstáculo, se equilibra em um banco sueco ou brinca de estátua, está refinando esse fator essencial à autonomia motora.
Como trabalhar a Equilibração na prática pedagógica.
Abaixo, alguns exemplos de atividades psicomotoras aplicadas em Educação Física infantil:
- Caminhar sobre superfícies instáveis (colchonetes, fitas no chão, almofadas) para estimular o controle postural.
- Brincadeiras de estátua: exigem parada súbita e controle de postura.
- Saltos em um ou dois pés, com ou sem obstáculos.
- Travessias com apoio limitado, como cordas estendidas ou linhas no solo.
- Circuitos motores com variações de nível, direção e base de apoio.
Essas atividades permitem que a criança experimente a instabilidade como oportunidade de crescimento, desenvolvendo coragem, autoconsciência corporal e controle emocional diante do novo.
Conclusão
A equilibração é mais do que manter-se de pé — é manter-se presente no corpo, no espaço e no tempo. É um processo dinâmico que se refina com estímulos adequados, respeito ao ritmo individual e muita ludicidade. Ao trabalhar esse fator psicomotor, o professor de Educação Física se torna um alfaiate do movimento, costurando com afeto e técnica o equilíbrio necessário para que a criança explore o mundo com segurança e liberdade.
Referência
- FONSECA, Vítor da. Psicomotricidade: Filogênese, Ontogênese e Retrogênese. Lisboa: Espaço e Forma, 1995.









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