Na dança da vida, a criança é o maestro do seu próprio corpo. Cada passo, cada giro, cada pausa no brincar revela algo mais profundo: a sua capacidade de compreender o espaço e o tempo em que está inserida. Dentro da psicomotricidade, esse talento em construção recebe o nome de estruturação espaço-temporal — um dos pilares fundamentais do desenvolvimento infantil.
O que é a Estruturação Espaço-Temporal?
A estruturação espaço-temporal é a habilidade de localizar-se, orientar-se e organizar-se no espaço e no tempo. Ela permite à criança perceber onde está, para onde vai, quanto tempo leva, qual é a direção do movimento e como coordenar seu corpo com outros corpos e objetos ao seu redor.
É o elo entre o aqui e o agora, entre o corpo e o mundo, entre o antes e o depois.
Segundo Vítor da Fonseca (1995), essa função psicomotora é essencial para a organização das demais aquisições cognitivas e motoras da criança, pois é por meio dela que se dá a tomada de consciência do próprio corpo no espaço e sua vivência temporal, abrindo caminho para aprendizagens mais complexas, como a leitura, a escrita e a matemática.
Já Jean Le Boulch (1987) destaca que o espaço e o tempo são estruturados inicialmente a partir do movimento, e que o corpo é o principal instrumento dessa construção. Para ele, é preciso “educar o movimento para educar a inteligência” — uma máxima que resume perfeitamente a importância da psicomotricidade.
Características da Estruturação Espaço-Temporal.
Essa função psicomotora se desdobra em duas dimensões complementares:
- 🔸 Estruturação Espacial:
- Noções de lateralidade (direita e esquerda).
- Direções (acima, abaixo, frente, atrás).
- Distância e proximidade.
- Orientação no espaço (em relação a si, a objetos e aos outros).
- 🔹 Estruturação Temporal:
- Sequência de eventos (antes, durante, depois).
- Ritmo e cadência.
- Duração (rápido x devagar).
- Noções de tempo cronológico (dias da semana, manhã e tarde).
Esses elementos são adquiridos de forma progressiva, por meio da experiência corporal ativa e do brincar — especialmente nos primeiros anos de vida, quando o corpo ainda é o principal canal de aprendizagem.
Como essa função é percebida na primeira infância?
Na primeira infância, a estruturação espaço-temporal ainda é incipiente, mas está em intensa construção. É comum observar crianças:
- tropeçando por desajustes de noção espacial;
- misturando o “ontem” com o “hoje”;
- correndo para o lado oposto da bola;
- organizando sequências de movimentos fora de ordem.
Essas manifestações não são erros, mas evidências de um sistema neuromotor em maturação.
Durante essa fase, a criança precisa de vivências corporais ricas, variadas e lúdicas que possibilitem a exploração do espaço e a percepção do tempo através de ações concretas.
Aplicações nas aulas de Educação Física na primeira infância.
Na Educação Física Escolar, o corpo é o pincel e o chão é a tela. É nesse palco que a estruturação espaço-temporal ganha vida.
Aqui vão algumas estratégias eficazes:
- Circuitos motores: Organizar atividades com obstáculos, túneis, cones e trajetos que desafiem a criança a se mover em diferentes direções, alternando ritmos e velocidades.
- Atividades rítmicas: Brincadeiras com música, palmas, instrumentos e movimentos coordenados com batidas ajudam a desenvolver a noção de tempo e ritmo.
- Jogos de sequência: Propor ações com ordens (ex: “pule, depois role, depois corra”) desenvolve a temporalidade e a capacidade de organizar ações em cadeia.
- Exploração de espaços: Levar a criança a explorar o ambiente escolar com desafios como “esconda-se atrás do banco” ou “vá até o canto direito da quadra”.
- Jogos cooperativos: Trabalhar com deslocamentos em grupo ou em duplas, onde é necessário ajustar-se ao ritmo e ao espaço do outro.
Conclusão
Desenvolver a estruturação espaço-temporal é ajudar a criança a se localizar no mundo e em si mesma. É dar-lhe ferramentas para interpretar os compassos da vida com mais precisão e autonomia.
A Educação Física na primeira infância tem papel protagonista nesse processo. Mais do que ensinar técnicas ou regras, ela oferece à criança a chance de viver seu corpo como linguagem, de experimentar o tempo como pulso, e o espaço como expansão.
Referência
- Fonseca, Vítor da. Psicomotricidade – Filogênese, Ontogênese e Retrogênese. Editora Pro-Salutis, 1995.
- Le Boulch, Jean. O Desenvolvimento Psicocinético da Criança: Educação pelo Movimento. Manole, 1987.
- Associação Brasileira de Psicomotricidade. Diretrizes para a prática psicomotora na infância.
- Vayer, Pierre. A Psicomotricidade: desenvolvimento e prática. Summus Editorial, 1992.









Leave a comment