A lateralidade é mais do que a simples preferência por uma das mãos, pés ou olhos. É um fator psicomotor fundamental que estrutura a organização interna e externa do indivíduo, influenciando desde o modo como nos movemos até como percebemos o mundo ao nosso redor.
Segundo o psicomotricista Vitor da Fonseca, a lateralidade integra o sistema de referência espacial do corpo, sendo parte do que ele chama de Sistema de Organização Psicobiológica. Ela surge a partir de vivências motoras e sensoriais ao longo da infância, consolidando-se por volta dos 6 a 8 anos, quando a criança já começa a demonstrar uma preferência mais clara por um dos lados do corpo — destro ou canhoto.
Características da Lateralidade.
De acordo com Fonseca (2008), a lateralidade é:
- Progressiva e vivencial: Ela não nasce pronta, mas vai se formando a partir das experiências da criança no ambiente.
- Indissociável da motricidade e da percepção espacial: Está ligada à consciência do próprio corpo e à orientação no espaço.
- Necessária para a aquisição da leitura e escrita: A dominância lateral interfere na direção da leitura, na grafia e no reconhecimento de símbolos.
Os tipos de lateralidade podem ser:
- Homogênea: quando mão, pé, olho e ouvido dominantes são do mesmo lado.
- Cruzada: quando há dominância em lados opostos (ex.: mão direita e olho esquerdo).
- Mal definida: quando a criança ainda não estabeleceu dominância clara.
Lateralidade nas aulas de Educação Física na primeira infância.
A Educação Física tem papel central no desenvolvimento da lateralidade, especialmente na primeira infância, período em que a criança está “mapeando” seu corpo. Nas atividades motoras, a lateralidade não é ensinada diretamente, mas vivenciada e construída por meio de experiências ricas, intencionais e diversificadas.
Exemplos práticos em aula:
- Jogos de manipulação e arremesso: estimular que a criança utilize ambas as mãos e observe qual apresenta mais facilidade.
- Atividades rítmicas e coreografias: com comandos como “levante o braço direito”, “pise com o pé esquerdo”, ajudando na discriminação corporal e espacial.
- Circuitos motores: incentivam trocas laterais, saltos com um pé e o outro, rolamentos e giros.
- Brincadeiras tradicionais: como amarelinha, pular corda e pega-pega, que naturalmente envolvem movimentos laterais e cruzados.
Essas vivências, quando planejadas com consciência pedagógica, ajudam a criança a reconhecer seu lado dominante, melhorar sua orientação espacial, e criar estabilidade neuromotora para aprendizagens futuras, como ler, escrever e organizar seu pensamento.
Conclusão
Lado a Lado com o Desenvolvimento
Trabalhar a lateralidade nas aulas de Educação Física é construir alicerces invisíveis, mas essenciais, para o desenvolvimento integral da criança. É dar a ela o poder de se localizar no espaço, de compreender seu corpo e de interagir com o mundo com mais segurança e autonomia. Em um mundo onde tudo gira, corre e troca de lugar, saber onde é a sua direita e sua esquerda é mais revolucionário do que parece.
Referência
- FONSECA, Vitor da. Psicomotricidade. Porto: Edições Asa, 2008.









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