Na trilha encantada da infância, onde cada passo é uma descoberta e cada gesto é um poema em movimento, a noção de corpo se apresenta como um dos pilares essenciais do desenvolvimento psicomotor. É através dela que a criança começa a construir a mais íntima das geografias: a de si mesma.
O que é a Noção de Corpo?
Segundo o psicomotricista Vitor da Fonseca (2008), a noção de corpo é “a capacidade que o indivíduo desenvolve de sentir, perceber e representar o seu próprio corpo, seja em repouso ou em movimento, tanto em relação a si mesmo quanto ao meio que o envolve”. Em outras palavras, trata-se da forma como a criança toma consciência do seu corpo como um todo funcional, organizado e presente no espaço e no tempo.
Essa construção não acontece da noite para o dia. Ela é um processo contínuo, nutrido pelas experiências sensório-motoras, afetivas e sociais vividas desde os primeiros anos de vida.
Características da Noção de Corpo.
A noção de corpo envolve várias dimensões interligadas:
- Imagem corporal: como a criança se vê e se sente.
- Esquema corporal: como ela organiza suas partes corporais para agir com precisão.
- Consciência corporal: percepção de onde começa e termina seu corpo.
- Integração sensorial e motora: união entre o sentir e o agir.
Fonseca destaca que a ausência ou fragilidade nessa construção pode refletir em dificuldades de aprendizagem, coordenação motora, lateralidade e até mesmo nas relações sociais e emocionais.
Como a Noção de Corpo se manifesta nas aulas de Educação Física?
Na primeira infância, o corpo é o principal canal de expressão e conhecimento. A Educação Física, portanto, torna-se um palco privilegiado para a criança experimentar-se e se reconhecer. Nas aulas, a noção de corpo é trabalhada através de:
- Atividades de reconhecimento corporal: jogos que exploram partes do corpo, como “Simon diz” ou “cabeça, ombro, joelho e pé”.
- Movimentos amplos e variados: correr, pular, rolar, engatinhar, equilibrar — ações que estimulam a consciência corporal.
- Dinâmicas com espelho ou pares: que favorecem a percepção visual e tátil do próprio corpo e do outro.
- Histórias motoras e circuitos psicomotores: onde a criança vive papéis e situações que exigem organização e uso intencional do corpo.
Além disso, a forma como o educador se comunica com o aluno — nomeando partes do corpo, incentivando o toque, explorando diferentes planos e direções — reforça a construção desse saber corpóreo.
Por que isso é tão importante?
Porque a criança que conhece seu corpo, conhece seus limites e possibilidades. Ela aprende a respeitar seu espaço e o do outro. Ela desenvolve segurança, autonomia e autoestima.
Na Educação Física, cada gesto é uma ponte entre o sentir e o pensar, entre o brincar e o aprender. E a noção de corpo é o alicerce invisível que sustenta essa travessia.
Referência
- Fonseca, Vitor da. (2008). Psicomotricidade: Filogênese, Ontogênese e Retrogênese. Porto: Edições Afrontamento.
- Le Boulch, J. (1987). O desenvolvimento psicomotor da criança. São Paulo: Manole.
- Oliveira, M. M. de. (2002). Psicomotricidade: o corpo na educação. Petrópolis: Vozes.









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