Quando falamos de movimento na infância, é fácil visualizar o correr, o pular, o escalar. Mas há uma sinfonia sutil e quase invisível que rege os gestos minuciosos do dia a dia: a praxia fina. No universo da psicomotricidade, ela representa a precisão, a coordenação refinada, a dança silenciosa entre intenção e execução — e é vital no desenvolvimento global da criança.
Neste texto, vou explorar o conceito da praxia fina sob a ótica de autores como Vitor da Fonseca, Jean Le Boulch e outros estudiosos da psicomotricidade, além de refletir sobre como esse fator é percebido e estimulado nas aulas de Educação Física na primeira infância.
Perspectivas Teóricas
- Vitor da Fonseca
O autor português destaca a praxia fina como uma função essencial no desenvolvimento psicomotor, ao lado de fatores como tonicidade, equilíbrio, lateralidade e estruturação espaço-temporal. Para Fonseca (1999), a motricidade fina revela a organização neurológica, perceptiva e cognitiva da criança, sendo reflexo de sua maturação cortical. “A praxia fina permite a exteriorização da inteligência pela manipulação simbólica dos objetos” — Fonseca, V. (1999). Psicomotricidade – Filogênese, Ontogênese e Retrogênese.
- Jean Le Boulch
Le Boulch vê a praxia fina como uma expressão do corpo educado, daquilo que vai além do instinto motor bruto. Em sua proposta de Educação pelo Movimento, ele defende a importância de vivências que unam o gesto ao pensamento, favorecendo o desenvolvimento harmônico da criança. “Todo gesto tem um sentido, e todo sentido precisa de um gesto para existir.” — Le Boulch, J. (1987). O Desenvolvimento Psicomotor: do nascimento aos 6 anos.
- Henry Wallon
Wallon complementa essa visão ao afirmar que o movimento é a primeira forma de comunicação da criança. A praxia fina, nesse contexto, permite a expressão de desejos, sentimentos e intenções — seja ao desenhar uma casa ou ao pegar uma colher.
Aplicações na Educação Física infantil.
Embora a praxia fina seja comumente trabalhada em contextos como a sala de aula ou sessões de terapia ocupacional, a Educação Física oferece um campo fértil e criativo para seu desenvolvimento — especialmente na primeira infância (0 a 6 anos).
Como ela se manifesta na prática?
- Brincadeiras com massinha, argila ou areia
- Jogos de encaixe e equilíbrio com objetos pequenos
(ex: equilibrar bolinhas em colheres, montar torres com peças pequenas)
- Atividades com cordas e elásticos
(ex: trançar, enrolar e desenrolar objetos)
- Circuitos motores com obstáculos que exigem manipulação cuidadosa
(ex: pegar tampinhas coloridas com pinça ou colher)
- Desenho livre com giz ou pincéis grossos e finos
O que se estimula?
- Coordenação óculo-manual
- Planejamento motor
- Concentração e atenção seletiva
- Lateralização manual
- Controle tônico dos pequenos músculos
Por que começar cedo?
Durante a primeira infância, o cérebro encontra-se em plena plasticidade neural. Estimular a praxia fina nesse período fortalece as conexões entre áreas motoras e cognitivas, favorecendo não só o desempenho escolar futuro (escrita, leitura, matemática), mas também a autonomia funcional da criança em tarefas do cotidiano.
Conclusão
A praxia fina é a arte do detalhe, o sopro da intenção nos dedos pequenos que descobrem o mundo. Em cada traço, cada botão apertado, cada peça empilhada, há um universo de conexões sendo formado. Na Educação Física, ela encontra terreno fértil para florescer em meio ao movimento, ao jogo e à alegria — porque, afinal, é brincando que se aprende a construir o mundo com as próprias mãos.
Seja com massinha, blocos ou uma bola de tênis, o gesto delicado da infância tem muito a nos dizer — basta que saibamos escutar… com o corpo inteiro.
Referências
FONSECA, Vitor da. Psicomotricidade – Filogênese, Ontogênese e Retrogênese. Editora Cedip, 1999.
LE BOULCH, Jean. O Desenvolvimento Psicomotor: do nascimento aos 6 anos. Artes Médicas, 1987.
WALLON, Henri. A Evolução Psicológica da Criança. Livros Técnicos e Científicos, 1975.
OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento. Scipione, 1993.
BERGES, J. & LEZINE, I. Testes de imitação de gestos: desenvolvimento psicomotor e praxia. CEPAE, 1981.









Leave a comment