Fatores Psicomotores: Praxia Grossa.

Fatores Psicomotores: Praxia Grossa.

Na dança instintiva do corpo em crescimento, a praxia grossa é a melodia invisível que organiza o gesto e dá sentido à ação. É o motor que impulsiona a criança a correr, pular, arremessar e equilibrar-se — ações que parecem simples aos olhos distraídos, mas que são coreografias complexas entre cérebro, músculos e intenção. Quando falamos em praxia grossa, falamos da arte de coordenar movimentos amplos com intencionalidade e eficácia. E é na Educação Física da primeira infância que essa arte se transforma em aprendizado, em jogo, em descoberta.

O que é Praxia Grossa?

De forma objetiva, a praxia grossa é a habilidade de realizar movimentos corporais amplos e coordenados com um objetivo definido. Ela se diferencia dos simples reflexos ou movimentos automáticos por envolver planejamento motor, coordenação e execução consciente de ações como saltar, correr, escalar, arremessar ou chutar.

Essa capacidade psicomotora envolve:

  • Coordenação motora global;
  • Controle postural;
  • Planejamento e execução de movimentos em sequência;
  • Adaptação do movimento ao espaço e ao tempo.

Segundo Vitor da Fonseca (1995), a praxia é uma das funções psicomotoras centrais, pois integra o corpo e o meio em uma relação simbólica e funcional. Já Jean Le Boulch (1987) destaca a praxia como “ato motor voluntário organizado”, essencial para a construção da autonomia e do esquema corporal.

Características da Praxia Grossa na primeira infância.

Durante os primeiros anos de vida, o cérebro infantil é uma orquestra em plena afinação. A praxia grossa, nesse período, se manifesta através de:

  • Movimentos amplos com o corpo todo: correr sem direção, saltar de um objeto a outro, rolar no chão.
  • Imitação de gestos e ações: ao copiar os colegas ou o professor, a criança começa a desenvolver sequências motoras organizadas.
  • Exploração do espaço: correr, passar por obstáculos, escorregar, subir e descer escadas são desafios motores que estimulam a organização práxica.
  • Brincadeiras simbólicas: como fingir que é um avião ou um animal, exigem coordenação, equilíbrio e controle corporal.

A Praxia Grossa na Educação Física da primeira infância.

Na Educação Física, a praxia grossa é cultivada como uma semente preciosa. É na quadra, no tatame, no playground ou na sala adaptada que ela floresce em formas variadas:

  • Circuitos motores: promovem a execução sequencial de movimentos, integrando tempo e espaço.
  • Brincadeiras de perseguição: como pega-pega, estimulam a adaptação motora rápida.
  • Jogos com bolas: arremessar, chutar, rolar e segurar a bola ajudam no planejamento e controle dos membros superiores e inferiores.
  • Atividades rítmicas: danças e jogos musicais trabalham a lateralidade, o ritmo e a coordenação.
  • Exploração de obstáculos: rampas, túneis e plataformas ativam a percepção espacial e o equilíbrio dinâmico.

Cada atividade é, na verdade, uma estratégia lúdica para consolidar a autonomia motora, preparar o corpo para a alfabetização motora e, sobretudo, respeitar o tempo e o ritmo de cada criança.

Por que desenvolver a Praxia Grossa é essencial?

A praxia grossa não se limita à Educação Física. Seu desenvolvimento tem implicações diretas na aprendizagem global:

  • Facilita o aprendizado escolar, pois sustenta a atenção, o controle postural e a organização espacial.
  • Previne dificuldades motoras e cognitivas relacionadas à disfunção na integração sensório-motora.
  • Promove autoestima e segurança corporal, elementos essenciais na construção da identidade infantil.

Referências teóricas fundamentais.

  1. Vitor da Fonseca – Em sua abordagem psicomotora, Fonseca trata a praxia como uma função simbólica do corpo, que emerge da interação entre percepção, cognição e motricidade.
  2. Jean Le Boulch – Considera a praxia como um dos pilares do desenvolvimento motor, especialmente em sua Teoria da Educação pelo Movimento.
  3. Henri Wallon – Destaca a importância do gesto como precursor da linguagem, enfatizando o papel da motricidade no desenvolvimento afetivo e intelectual.
  4. Piaget – Em sua epistemologia genética, apresenta o movimento como base do conhecimento, sendo a ação motora a via de construção da inteligência prática.

Conclusão

Na primeira infância, o corpo é o principal instrumento de aprendizagem. Através da praxia grossa, a criança aprende a dominar o mundo com os pés, as mãos, o tronco — com tudo aquilo que a faz estar e agir no mundo. Ao educar o movimento, educamos a intenção, o pensamento e a relação com o outro.

A Educação Física, nesse contexto, não é apenas movimento por si. É movimento com propósito. É poesia em ato, onde cada salto é uma pergunta, cada arremesso é uma resposta e cada jogo é um caminho de descoberta.


Referência

  • Fonseca, Vitor da. Psicomotricidade: Filogênese, Ontogênese e Retrogênese. Editora Prolivros, 1995.
  • Le Boulch, Jean. O Desenvolvimento Psicomotor da Criança. Manole, 1987.
  • Wallon, Henri. A Evolução Psicológica da Criança. Vozes, 2007.
  • Piaget, Jean. O Nascimento da Inteligência na Criança. Zahar, 1959.

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