Cicatrização e Hipersensibilidade: O Que Saber.

Muitas pessoas não sabem disso, mas as cicatrizes podem incomodar bastante após meses ou até anos após a cirurgia. Recentemente fiz uma cirurgia no tendão do calcâneo (Aquiles) e ainda no processo de recuperação, já quando a tempo suficiente de cicatrização do tendão em si, usar um tênis, uma bota ou similares têm sido bastante incômodo para mim. Depois de 2 meses sem colocar o pé no chão e com o retorno da fisioterapia, sinto que ao fazer os movimentos de flexão e extensão começaram a exigir da flexibilidade da pele na região do corte, e vinculado, principalmente, com o atrito da meia com o apoio do calcâneo do tênis, essa fricção é dolorosa. Por que será que doem? Aqui algumas considerações dos porquês das dores das cicatrizes…

A cicatriz é muito mais do que uma simples marca na pele — ela é a memória viva de um trauma tecidual. Depois de uma cirurgia, é comum que os pacientes relatem dor, ardência ou até hipersensibilidade no local da cicatriz. Mas por que isso acontece?

O que acontece com os nervos durante a cicatrização.

Quando a pele e os tecidos mais profundos são cortados, milhares de terminações nervosas também são afetadas. Durante a cicatrização, esses nervos podem:

  • Se regenerar de forma irregular, enviando sinais de dor mesmo sem estímulo nocivo.
  • Ficar presos na fibrose da cicatriz, sendo comprimidos mecanicamente.
  • Criar áreas de hipersensibilidade, chamadas de alodinia, onde até um leve toque pode ser doloroso.

Segundo Röhrich et al. (2018), a dor e a hipersensibilidade cicatricial estão frequentemente ligadas à regeneração nervosa incompleta ou desorganizada. Já Jellish & Shea (2014) destacam que as cicatrizes podem ser um ponto de dor neuropática, especialmente quando há aderência dos tecidos.

Sensibilidade da cicatriz.

Estudos também mostram que a cicatriz não apenas muda a textura da pele, mas altera a percepção sensorial do local. De acordo com Hermans (2015), a cicatriz pode apresentar tanto hipersensibilidade quanto hipossensibilidade — ou seja, pode reagir demais a estímulos ou, em alguns casos, perder parcialmente a sensibilidade.

Essa alteração está ligada ao processo de reparação neural e à forma como as fibras nervosas voltam a se conectar. Quando essa comunicação é “embaralhada”, o cérebro interpreta o estímulo como dor, mesmo quando não há ameaça real.

Quando a dor é sinal de alerta.

Um certo nível de desconforto faz parte do processo normal de cicatrização. Porém, se a dor for intensa, persistente ou vier acompanhada de sinais como vermelhidão, calor excessivo e secreção, pode indicar complicações, como infecção ou formação de neuromas (pequenas massas de nervos cicatrizados anormais).

Conclusão

A dor pós-cirúrgica na cicatriz é consequência direta da complexa dança entre regeneração nervosa, fibrose e adaptação sensorial. Embora muitas vezes diminua com o tempo, em alguns casos ela pode se tornar crônica e exigir acompanhamento médico especializado.

Referências

  • Röhrich, R. J., Stuzin, J. M., & Dayan, E. (2018). The Anatomy and Biology of Scar Formation. Plastic and Reconstructive Surgery.
  • Jellish, W. S., & Shea, J. (2014). Neuropathic Pain Associated with Surgical Scars. Journal of Pain Research.
  • Hermans, M. H. E. (2015). Clinical Evidence of Wound Healing, Scar Assessment, and Pain Management. Wound Repair and Regeneration.

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