Quando pensamos em esportes como Boxe, MMA ou Futebol Americano, é comum imaginar força, estratégia e superação. Porém, por trás do espetáculo, existe um preço silencioso: os impactos repetitivos na cabeça podem causar lesões neurológicas graves, muitas vezes irreversíveis.
Traumatismo craniano e o fantasma da CTE.
A Encefalopatia Traumática Crônica (CTE — Chronic Traumatic Encephalopathy) é uma doença neurodegenerativa associada a impactos repetitivos na cabeça. Ela é caracterizada pelo acúmulo anormal da proteína tau no cérebro, provocando sintomas como perda de memória, depressão, mudanças de comportamento, impulsividade, ansiedade e, em estágios avançados, demência.
No Boxe, o fenômeno é antigo e conhecido como “dementia pugilistica”. No MMA, estudos recentes mostram que lutadores também apresentam alterações cerebrais semelhantes, mesmo quando não sofrem nocaute. No Futebol Americano, a relação ficou mundialmente famosa com a divulgação de casos de ex-jogadores da NFL diagnosticados postumamente com CTE.
Nomes que acenderam o alerta.
- Muhammad Ali (Boxe) — sofreu de parkinsonismo, condição muitas vezes associada a traumas repetitivos.
- Junior Seau (NFL) — astro do San Diego Chargers, cometeu suicídio em 2012; exames post-mortem revelaram CTE.
- Aaron Hernandez (NFL) — ex-jogador dos Patriots, diagnosticado com um dos casos mais graves de CTE já registrados em alguém tão jovem.
- Chris Benoit (Wrestling) — embora não seja NFL, seu cérebro mostrou degeneração severa comparável a de pacientes idosos com Alzheimer.
- Lutadores do MMA, como Spencer Fisher, já relataram problemas cognitivos crônicos após anos de combates.

A ciência por trás dos impactos.
Pesquisas demonstram que mesmo impactos sub-concussivos, aqueles que não causam sintomas imediatos, podem somar efeitos ao longo do tempo. Em esportes de contato, o cérebro sofre acelerações e desacelerações bruscas dentro do crânio, causando microlesões em axônios (as fibras nervosas responsáveis pela comunicação neural).
Em jogadores de Futebol Americano, exames de imagem revelam atrofia cerebral e alterações na substância branca antes mesmo de sintomas clínicos surgirem. Boxeadores e lutadores de MMA frequentemente apresentam déficits de memória e processamento cognitivo após anos de carreira.
Saúde mental e qualidade de vida pós-carreira.
Além das alterações motoras e cognitivas, ex-atletas relatam depressão severa, impulsividade e pensamentos suicidas. A combinação de dor crônica, alterações químicas cerebrais e perda de identidade profissional agrava o quadro. Esse impacto psicológico é um alerta não apenas para médicos, mas para famílias e educadores esportivos.
Caminhos para um esporte mais seguro.
Não se trata de demonizar os esportes de contato, mas de promover consciência e prevenção. Medidas como:
- Melhorar os protocolos de retorno após concussão;
- Investir em equipamentos de proteção com real eficácia;
- Limitar sessões de sparring e treinos de impacto;
- Educação de atletas e treinadores sobre sintomas de concussão.
Em escolas e academias, é essencial orientar jovens e pais sobre os riscos de impactos repetitivos na cabeça e promover uma prática esportiva mais consciente.
Referências
- McKee, A. C., et al. (2013). The spectrum of disease in chronic traumatic encephalopathy. Brain, 136(1), 43–64.
- Mez, J., et al. (2017). Clinicopathological evaluation of chronic traumatic encephalopathy in players of American football. JAMA, 318(4), 360–370.
- Bernick, C., & Banks, S. (2013). What boxing tells us about repetitive head trauma and the brain. Alzheimer’s Research & Therapy, 5(3), 23.
- Stern, R. A., et al. (2011). Long-term consequences of repetitive brain trauma: chronic traumatic encephalopathy. PM&R, 3(10), S460–S467.
- Guskiewicz, K. M., et al. (2005). Association between recurrent concussion and late-life cognitive impairment in retired professional football players. Neurosurgery, 57(4), 719–726.
Assista ainda…
Minha dica é esse filme com o Will Smith que mostra bem o que ocorre com os jogadores de Futebol Americano em decorrência de concussões.
Um Homem Entre Gigantes (Concussion, 2015):
Nos bastidores glamorosos, mas brutais, da Liga Nacional de Futebol Americano, um médico legista nigeriano, o Dr. Bennet Omalu (Will Smith), descobre algo perturbador: uma doença cerebral degenerativa — a encefalopatia traumática crônica (CTE) — ligada aos repetidos impactos na cabeça sofridos por jogadores profissionais. Movido por ética e compaixão, Omalu enfrenta a poderosa NFL, que tenta desacreditar suas descobertas e silenciá-lo para proteger o esporte e seus lucros bilionários.
Entre ciência e poder, o filme revela o preço real da glória esportiva: a saúde e a vida de atletas que se tornaram heróis nacionais — e depois foram esquecidos. É um drama biográfico sobre coragem moral, luta pela verdade e o impacto silencioso dos traumas no cérebro.









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