No coração do futebol, mora a paixão. Mas também mora a teatralidade. Desde os primórdios do esporte, jogadores descobriram que um gesto dramático podia influenciar árbitros, rivais e até a narrativa da partida. A simulação — ou “cavar” faltas, pênaltis e até expulsões — tornou-se parte indesejada, mas fascinante, da cultura do futebol.
Origens: o drama entra em campo.
Nos anos 1930 e 1940, quando o futebol se consolidava como espetáculo global, já havia registros de jogadores exagerando contatos para conseguir vantagem. Mas foi nas décadas de 1970 e 1980, com a ascensão da TV e das transmissões em massa, que a simulação ganhou outro peso: cada queda dramática passava a ser vista (e revista) milhões de vezes. O espetáculo não era só com a bola nos pés — era também com gestos teatrais que buscavam arrancar cartões ou faltas perigosas.
A popularização do replay ajudou a denunciar exageros, mas também reforçou a ideia de que pequenos detalhes poderiam mudar resultados. A câmera lenta revelava toques mínimos que geravam quedas cinematográficas.
Por que os jogadores simulam?
A simulação, em essência, é um cálculo de risco e recompensa.
Alguns motivos principais:
- Buscar vantagem em um jogo de alta competitividade
Um pênalti pode definir uma final de Copa. Uma falta pode aliviar a pressão ou abrir chance de gol. Quando o jogo é equilibrado, qualquer detalhe importa. - Pressão por resultados e cultura de vitória
Em clubes onde o resultado é soberano, vale tudo para vencer. O jogador que “cava” uma falta decisiva pode ser exaltado como esperto — ou criticado como antiético. - Proteção física (real ou percebida)
Muitos atletas simulam para se proteger de entradas duras. Ao cair, chamam a atenção do árbitro e inibem jogadas violentas. - Influência do ambiente
Torcida, imprensa e até técnicos muitas vezes validam o comportamento. O famoso “se não cair, o juiz não marca” virou mantra em diversas gerações.
Quando o jogo se torna anti-jogo.
A simulação não é só uma encenação; ela fere a essência competitiva do esporte. Entre os impactos negativos:
- Perda de credibilidade
Árbitros tornam-se mais céticos, prejudicando jogadores que realmente sofrem faltas. Torcedores ficam frustrados com a manipulação do jogo. - Quebra do ritmo e da beleza da partida
Interrupções constantes destroem o fluxo, transformando um jogo vibrante em um festival de quedas. - Influência desproporcional no resultado
Uma penalidade mal marcada pode mudar o destino de um campeonato — criando injustiças e polêmicas eternas. - Exemplo para novas gerações
Crianças assistem seus ídolos e reproduzem o comportamento, normalizando algo que mina o espírito esportivo.
A luta contra o teatro: VAR, Fair Play e mudança de cultura.
Nos últimos anos, a FIFA e ligas ao redor do mundo têm combatido a simulação com tecnologia e regulamentação.
O VAR (árbitro de vídeo) foi um divisor de águas, ajudando a identificar toques inexistentes ou quedas forçadas. Árbitros passaram a punir simulações com cartão amarelo, algo impensável décadas atrás.
Ainda assim, a mudança cultural é lenta. Enquanto torcedores e comentaristas chamarem certos lances de “esperteza”, o comportamento seguirá vivo.
Entre o gênio e o vilão.
A simulação ocupa uma zona cinzenta: ao mesmo tempo em que pode ser vista como inteligência tática, também é vista como traição à essência do jogo. O futebol é emoção, estratégia e imprevisibilidade — mas também precisa de integridade para ser justo e inspirador.
Reduzir a simulação não é só questão de regras, mas de valores. É educar novas gerações para entender que vencer com honestidade engrandece o esporte. Afinal, um gol conquistado de forma limpa sempre terá mais peso do que qualquer pênalti arrancado no teatro da grande área.
Opinião.
Como professor de Educação Física, especialmente falando de futebol, as crianças reproduzem o que seus ídolos fazem em campo, inclusive a simulação. Em um lugar onde é ensinado respeito ao adversário e combate ao anti-jogo, a quadra da escola se torna um palco de teatro, estimulando a mentira.
Isso é bem grave no sentido de não seguir regra, sempre querer burlar o sistema e não enfrentar as consequências de uma jogada que não deu certo naquele momento, mas ao invés de levantar e ”sacudir a poeira”, a criança imita o que os jogadores fazem em campo.
Na minha opinião, a Fifa e as confederações deveriam ser mais rígidos nas consequências para quem atua fingindo falta, lesões, etc, isso porque é fomentada esta atitude lamentável e molda as reações das novas gerações que surgem no futebol.
Referências.
COLLINS, Tony; PEARSON, Garry. The construction of gamesmanship: Football and the discourse of cheating. Sport in History, v. 33, n. 4, p. 538-554, 2013.
HOPKINS, Paul. Diving, deception and the spirit of the game: The case of association football. Soccer & Society, v. 15, n. 3, p. 295-309, 2014.
KAVUSSANOS, Dimitris; SIAPAS, Georgios. Simulation and unsporting behavior in football: An ethical and regulatory analysis. Journal of Sports Ethics, v. 12, n. 2, p. 87-101, 2018.
SCHWAB, Kevin. Video Assistant Referee (VAR) and fair play: Technological intervention against simulation. European Sport Management Quarterly, v. 21, n. 5, p. 745-764, 2021.
Quando os jogadores são dignos de Oscar:









Leave a comment