A Educação Física Escolar Bilíngue no Ensino Infantil: Movimento, Linguagem e Descoberta.

Na especialização em Psicomotricidade abordei o tema bilinguismo aplicado na Educação Física no ensino infantil e como as práticas se tornam facilitadora no processo de aprendizagem do segundo idioma. Aqui em baixo alguns pontos que devem ser enfatizados para compreender o poder da EF no ensino bilíngue.

O corpo como mediador linguístico.

Pesquisas em neurociência educacional mostram que o aprendizado de uma segunda língua é potencializado quando associado a experiências sensoriais e motoras (Glenberg & Kaschak, 2002; Piaget, 1973).
A Educação Física bilíngue atua exatamente nesse ponto: ao integrar vocabulário e ação, cria memórias corporais linguísticas — o que o corpo faz, o cérebro nomeia.

Imagine uma aula em que a criança aprende “jump”, “throw”, “catch” e “run” enquanto executa cada verbo. O idioma se torna concreto, vivo, incorporado.
Como destaca Vygotsky (1987), “o pensamento se desenvolve através da linguagem, e a linguagem encontra forma na ação.”
Na Educação Infantil, esse ciclo é perfeito: o movimento dá corpo à palavra, e a palavra dá significado ao movimento.

Estratégias de ensino bilíngue em Educação Física.

Abaixo, algumas práticas inspiradas em contextos internacionais (IB, CLIL e BNCC) adaptadas à realidade brasileira:

1. CLIL Movement (Content and Language Integrated Learning)

Utilizar o movimento como conteúdo e o idioma como veículo.
Exemplo: uma sequência didática sobre esportes coletivos pode incluir vocabulário (team, pass, score, goal) e expressões sociais (Let’s go!, Good job!, Try again!) integradas à rotina da aula.

2. Story-Motion

Transformar contos e histórias em aulas motricamente ativas.
Durante a narrativa bilíngue (“The little frog jumps over the log”), os alunos reproduzem os movimentos dos personagens, associando léxico, ritmo e corporeidade.

3. Routine Language

Criar rotinas fixas de comandos e expressões do dia — por exemplo:

  • “Line up!” (enfileirem-se)
  • “Hands on your knees.”
  • “Who wants to start?”
    Essas repetições cotidianas constroem familiaridade e segurança linguística.

Games with vocabulary cards.

Jogos cooperativos em que o aluno precisa realizar a ação correspondente ao cartão (run, spin, crawl, balance).
A aprendizagem ocorre de forma natural, com repetição contextualizada — um dos pilares da aquisição linguística segundo Krashen (1985).

Interdisciplinaridade corporificada.

A Educação Física bilíngue pode dialogar com Matemática (counting jumps), Ciências (body parts, senses) e Artes (rhythm, expression).
Essas conexões ampliam o repertório semântico e criam uma rede neural integrada — exatamente como propõe Gardner (1993) em sua teoria das múltiplas inteligências.

A importância dos vocabulários corporais.

Na Educação Infantil, o vocabulário físico (verbs of action, body parts, spatial prepositions) é a ponte entre o concreto e o simbólico.
Cada gesto nomeado solidifica um conceito. Quando o aluno entende “under”, “over”, “between”, “behind” através de circuitos motores, ele constrói uma compreensão espacial trilingue: corpo, mente e idioma.

A neuroeducação reforça essa abordagem: a ativação simultânea de áreas motoras e linguísticas no cérebro cria engrams mais fortes (Pulvermüller, 2005), resultando em maior retenção e fluência.

Educação Física, interdisciplinaridade e cultura.

A Educação Física bilíngue não é uma tradução literal de termos — é uma tradução cultural e cognitiva.
Quando a criança dança músicas em inglês, joga jogos tradicionais de outros países ou aprende regras de esportes de culturas distintas, ela internaliza valores globais.
Assim, o corpo torna-se um mediador intercultural, capaz de entender o mundo por meio do movimento e da linguagem.

Como diz Dewey (1938), “A educação não é preparação para a vida; é a própria vida em movimento.”


Referências Bibliográficas

  • Dewey, J. (1938). Experience and Education. New York: Macmillan.
  • Gardner, H. (1993). Multiple Intelligences: The Theory in Practice. Basic Books.
  • Glenberg, A. M., & Kaschak, M. P. (2002). Grounding language in action. Psychonomic Bulletin & Review, 9(3), 558–565.
  • Krashen, S. D. (1985). The Input Hypothesis: Issues and Implications. Longman.
  • Piaget, J. (1973). To Understand is to Invent: The Future of Education. Grossman Publishers.
  • Pulvermüller, F. (2005). Brain mechanisms linking language and action. Nature Reviews Neuroscience, 6(7), 576–582.
  • Vygotsky, L. S. (1987). Thought and Language. MIT Press.

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