A história da abordagem pedagógica de Reggio Emilia parece quase um pequeno épico educacional. Ela nasce não de um laboratório acadêmico, mas de um momento dramático da história humana: o fim da Segunda Guerra Mundial.
1. O nascimento entre ruínas (1945).
Em 1945, na cidade de Reggio Emilia, no norte da Itália, a guerra havia terminado, mas o país estava devastado. Casas destruídas, economia fragilizada e uma população tentando reconstruir não apenas prédios, mas também valores sociais.
Foi nesse cenário que ocorreu algo extraordinário.
Moradores de uma pequena vila chamada Villa Cella, próxima a Reggio Emilia, decidiram vender destroços de tanques de guerra, cavalos abandonados e materiais militares deixados pelos alemães para construir uma escola para suas crianças.
A ideia era simples e poderosa: criar uma educação que formasse cidadãos críticos, capazes de construir uma sociedade mais democrática e menos autoritária.
Esse gesto coletivo chamou a atenção de um jovem professor e jornalista italiano:
- Loris Malaguzzi
Malaguzzi visitou a comunidade e ficou profundamente impactado pela iniciativa popular. A partir dali, passou a colaborar com os moradores e ajudou a estruturar o que mais tarde se tornaria a Abordagem Reggio Emilia.
2. A filosofia educacional que surgiu.
Malaguzzi acreditava que a criança não é um recipiente vazio a ser preenchido, mas um sujeito ativo na construção do conhecimento.
Uma de suas ideias mais famosas é o conceito de:
“As cem linguagens da criança.”
Isso significa que a criança aprende e se expressa por muitos caminhos:
- desenho
- movimento
- construção
- música
- fala
- imaginação
- experimentação
- linguagem corporal
Ou seja, aprender não acontece apenas ao ouvir o professor.
A pedagogia passou a se apoiar em alguns pilares fundamentais:
A criança como protagonista
Ela participa da construção do conhecimento.
O professor como pesquisador
O educador observa, documenta e investiga o processo de aprendizagem.
O ambiente como terceiro educador
A sala de aula é cuidadosamente planejada para provocar curiosidade.
Aprendizagem por projetos
As atividades partem das perguntas das próprias crianças.
Documentação pedagógica
Fotos, registros, desenhos e narrativas acompanham o processo de aprendizagem.
3. Reconhecimento internacional.
Durante as décadas de 1960 e 1970, as escolas municipais de Reggio Emilia passaram a desenvolver esse modelo pedagógico de forma sistemática.
O sistema ganhou enorme reconhecimento internacional quando, em 1991, a revista educacional norte-americana Newsweek declarou uma das escolas de Reggio Emilia como:
“a melhor escola infantil do mundo.”
Isso colocou a cidade italiana no mapa global da educação.
Depois disso:
- Universidades começaram a estudar a abordagem
- Educadores do mundo inteiro passaram a visitar Reggio Emilia
- Centros de formação pedagógica foram criados
Um dos mais importantes é o Reggio Children, responsável por difundir a filosofia pelo mundo.
4. Chegada e expansão no Brasil.
A abordagem passou a influenciar o Brasil principalmente a partir dos anos 1990 e 2000, quando educadores brasileiros passaram a visitar a Itália e a estudar o método.
Alguns fatores facilitaram essa expansão:
Mudanças na visão da infância
A educação infantil passou a ser vista como uma etapa fundamental do desenvolvimento.
Influência da pedagogia construtivista
Ideias próximas às de Piaget e Vygotsky dialogam com as de Reggio Emilia.
Reformas educacionais brasileiras
Documentos como a Base Nacional Comum Curricular valorizam:
- protagonismo infantil
- experiências investigativas
- aprendizagem ativa
- expressão por múltiplas linguagens
Tudo isso dialoga diretamente com a abordagem.
Hoje, muitas escolas brasileiras adotam práticas inspiradas em Reggio Emilia, principalmente na educação infantil.
Entre elas:
- documentação pedagógica
- ateliês criativos
- projetos investigativos
- ambientes de aprendizagem abertos
- participação das famílias
5. Por que essa metodologia continua crescendo?
A abordagem de Reggio Emilia ganhou força no século XXI porque responde a uma pergunta central da educação contemporânea:
Como formar pessoas criativas, críticas e capazes de pensar por si mesmas?
Em vez de priorizar apenas conteúdo, ela prioriza:
- curiosidade
- investigação
- colaboração
- expressão
- autonomia
Em outras palavras, a escola deixa de ser uma fábrica de respostas e passa a ser um laboratório de perguntas.
6. Uma metáfora para entender Reggio Emilia.
Se a escola tradicional é como um quadro-negro, onde alguém escreve e os outros copiam, a abordagem de Reggio Emilia se parece mais com um ateliê de artistas.
Ali há:
- tinta
- perguntas
- materiais
- hipóteses
- descobertas inesperadas
E cada criança pinta sua própria maneira de compreender o mundo.
Referências
Malaguzzi, Loris.
Makes Learning Visible: Children as Individual and Group Learners.
Reggio Children & Project Zero, Harvard Graduate School of Education, 2001.
Malaguzzi, Loris.
The Hundred Languages of Children: The Reggio Emilia Experience in Transformation.
Greenwich: Ablex Publishing, 1998.
Edwards, Carolyn; Gandini, Lella; Forman, George (orgs.).
The Hundred Languages of Children: The Reggio Emilia Approach to Early Childhood Education.
3ª edição. Santa Barbara: Praeger, 2012.








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